No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
Fecharam o Cine Ritz, no Conic, aqui em Brasília. O cinema abriu na década de 70. O objetivo era passar "filmes de arte". Mas há tempos que a arte que ele exibia era outra: moçoilas tirando a roupa. Até aí tudo bem. O problema é que também tinha sexo ao vivo. E sorteavam um felizardo da platéia para... digamos... participar da performance das meninas. O delegado achou que não podia e mandou acabar com a brincadeira. Com o perdão da palavra: que sacanagem!
A direção do partido definiu - sabe-se lá como - que o candidato a governador vai ser o Agnelo Queiroz, "cristão novo" que se bandeou do PC do B para o PT no ano passado. O deputado Geraldo Magela (coleguinha de BB) não gostou e se lançou candidato ontem, numa reunião com 800 militantes e nenhum cacique.
A direção mandou dizer que o Magelinha está só brincando. Que ele quer mesmo é se cacifar para a reeleição de deputado. O Chico Vigilante, presidente do PT-DF, foi além: "o Magela é useiro e vezeiro de fazer esssas coisas. Usar o partido para outros propósitos." O Magela rebateu. É candidato a governador pra valer. Quer uma prévia. E para não baixar o tom, avisou que não admite "bravatas".
O governador Arruda, do Pefelê, tem tudo para se reeleger. Ou então volta o Roriz. Que escolha. O Partido dos Trabalhadores está fora do páreo, como se pode notar.
Os cinco últimos posts do blog do Josias de Souza - leia-se Folha de SP - são dedicados a esculhambar o presidente do Senado. E é cada tijolaço... no total são 13 (treze) telas do computador. Ninguém aguenta ler. Para com isso, Josias! Você acaba me fazendo simpatizar com o Sarney.
Pelo menos 35 sites dos Estados Unidos e da Coréia do Sul sofreram ataques simultâneos de hackers. Nos Estados Unidos pegaram o site da Casa Branca, o do Departamento de Defesa, o da Bolsa de Valores de Noviorque, entre outros. Na Coréia, o site da Presidência, o do Ministério da Defesa, o do Parlamento, o do maior portal de acesso do país e mais uns tantos.
Está tudo bem. Já descobriram o culpado. Não, não foi um grupo de adolescentes dos dois países que combinaram tudo no Facebook. A culpa é do Kim Jong Il, Kum Ji Ling, King Kong Li, um troço desses. Ele mesmo: o chefão da Coréia do Norte. Cansado de soltar mísseis e construir bombas, o maluquete resolveu brincar de outra coisa.
Parece aquela fala do filme Casablanca: "prendam os suspeitos de sempre!"
Se não deu para entender, esclareço agora. Não pretendo negar as evidências do aquecimento global. Tudo indica que este está ligado a emissões de vários gases, em especial o dióxido de carbono. O fenômeno tem início na Revolução Industrial.
Só não gosto nada de catastrofismos. O apocalipse vem sendo constantemente adiado, desde o ano 1.000. Também não gosto de unanimidades, todas burras, como já dizia Nelson Rodrigues. Gosto menos ainda de catrastofismos unânimes. E simplesmente detesto unanimidades catastrofistas que mal encobrem seus patrocinadores.
Nesse papo colonialista, quer dizer, ambientalista, o Brasil é um caso à parte. Aqui temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, toda baseada em hidroelétricas. Se o país tem alta emissão de carbono, é por causa do desmatamento.
É muito diferente da China, por exemplo. A gente tem o maior interesse em diminuir a emissão de carbono. Para contribuir com o controle do aquecimento global. E para impedir a destruição da Amazônia, tesouro de biodiversidade.
Resta saber para onde vai a madeira e a carne produzidas pelo desmatamento ilegal. Desconfio que boa parte é exportada. Para o Primeiro Mundo. Na melhor das hipóteses, a carne e a madeira certificadas vão para a exportação, e sobra mercado interno para os produtos sem o selinho. Elementar, meu caro Watson.
Nos anos 70, o papo era a "poluição". Assim genérico. Depois veio a tal da camada de ozônio. Hoje os chamados ambientalistas estão se lixando para o ozônio. Só se fala em aquecimento global.
Por coincidência, ou não, foi na década de 70 que começaram a exportar as fábricas mais sujas para o terceiro mundo. A preocupação se voltou para o ozônio quando as indústrias queriam implantar novas tecnologias, sem CFC, em geladeiras e condicionadores de ar. E o aquecimento global só virou problema quando países emergentes começaram a competir pesado no comércio global, com fontes de energia já ultrapassadas nos países ricos, e que poluem mais. A China, por exemplo, usa carvão direto. Que nem a Inglaterra da Revolução Industrial.
A China é o país que mais emite gases dos efeito estufa. Pudera, tem a maior população do mundo. A emissão per capita é muito menor que a dos norteamericanos ou europeus. Mas o problema é a China. Por causa da poluição? Ou é porque produz mais e mais barato?
Agora os emergentes recusaram a proposta do G8 para controle do aquecimento global. Os ricos querem "compartilhar" suas metas de redução de gases. Eles diminuem o muito que soltam na atmosfera. Os pobres diminuem seu pouquinho. Por que será que não criam metas per capita? Assim, ó: cada país só vai poder soltar "xis" de carbono por pessoa.
Para o presidente da Índia, "o enfrentamento da mudança climática não pode ser obtido pela perpetuação da pobreza". Lula também soltou o verbo: "os países ricos exigem que os países pobres sejam responsáveis pela redução da poluição do planeta."
Os ricos ficaram ricos destruindo o meio ambiente sem nenhum controle. Agora se arvoram a controlar os pobres. Estes que continuem pobres. Querem que a China solte menos carbono? Então paguem a construção de usinas atômicas, eólicas, solares, sei lá o quê. O banquete foi deles. Agora a conta é nossa?
A vida da Ruth, minha mãe, terminou às 8 horas e 32 minutos da sexta-feira.
Não foi uma vida excepcional. Mas foi uma vida inteira, produtiva e intensa. A menina queria ser médica, mas o pai não deixou. Era o Brasil dos anos 30. Então ela se formou professora primária no Instituto de Educação. Foram mais de 25 anos de sala de aula, estropiando a cordas vocais. Em geral ela educava as crianças das favelas, dos subúrbios longínquos, dos bairros mais pobres. Já aposentada, volta e meia encontrava um ex-aluno trabalhando de atendente no supermercado, ou de caixa no banco, uma coisa assim. Gente do bem. Trabalhadores honestos. E que sempre reconheciam a antiga mestra. Nessas horas, os olhos da Ruth brilhavam. A Ruth tinha uns olhos verdes com raios amarelos, olhos de gato.
O interesse pela medicina, somado à experiência com centenas de crianças, fez dela uma pediatra prática. Muito antes dos doutores, diagnosticava as doenças infantis dos meus filhos. "É uma virose", dizia o doutorzinho. "Caxumba", cravava a Ruth. Batata. Depois de um dia ou dois inchavam os gânglios. Era caxumba.
Minha filha Tereza é disléxica, mas tem uma letrinha até boa, de tanto que a avó treinou com ela em cadernos de caligrafia. "Essa menina tem dislexia." E a psicóloga: "que nada." Precisava desempatar. Levei Tereza em São Paulo para fazer o teste. Dislexia severa. Previsão de uns 10 anos de psicopedagoga e fono. Mas quem descobriu foi a intuição de mestra da Ruth.
Com seu curso de segundo grau, minha mãe deu aulas aos filhos e netos até o vestibular. Só não ensinava física. O resto era com ela mesma. Com quase 60 anos, voltou a estudar e se formou em teologia e em filosofia. Com 70 anos, dava aulas de lógica na faculdade. Com 75, mantinha um grupo de estudo de teologia. Com 80, era aluna de francês.
A história dos seus pais dava um livro. Sem exagero. Manuel era atleta, remador do Vasco, campeão sul-americano de single skiff. Luciana tinha tuberculose. Na época, era sentença de morte. A família do meu avô não aceitava o casamento de jeito nenhum. E quando Luciana engravidou os médicos não queriam deixar o bebê nascer. A Ruth nasceu saudável, mas sua mãe não viveu muito mais. Elas nunca se conheceram.
Talvez por isso, a Ruth foi super-mãe dos dois filhos, super-avó dos quatro netos, super-mestra dos alunos. Durona e exigente. Mas antes de tudo cuidadora. Quando eu passei meses no hospital, ela praticamente se internou junto. Só saía da cabeceira da cama aos domingos: levava a mala com roupa suja, trazia a mala com roupa limpa, no intervalo assistia à missa e pegava um cineminha. E muito mais tarde, quando seu marido adoeceu mortalmente de velhice e tristeza, ela foi a super-mãe dele também.
Mamãe morreu cinco anos depois do meu pai, e foram cinco anos de lenta decadência. No final ela andava muito irritada com a falta de mobilidade e a dependência dos outros. A vida toda ela cuidou, agora era cuidada. Não tinha o costume.
Existe céu? Se existe, ela agora está dando aula para os querubins, aconselhando Maria, tomando conta de Jesus. Esse menino é muito rebelde.
A companhia aérea irlandesa Ryanair quer que a Boeing faça uma porta de banheiro diferente, para cobrar do passageiro que vai lá no miguel. E está pedindo autorização às autoridades para transportar passageiros em pé.
Nem tudo é monumental aqui em Brasília. A Igrejinha, na Entrequadra 307/308 Sul, é uma pequena jóia. É a primeira igreja de alvenaria da capital - já completou cinquenta anos. O projeto é de Niemeyer, os azulejos são de Athos Bulcão e os afrescos internos eram de Volpi. Eram. O descaso oficial os deixou tão deteriorados que não dava mais para restaurar.
O governo atual chamou o artista plástico Galeno para fazer novos afrescos. Galeno é daqui mesmo e sua obra tem lá suas similitudes com Volpi - sem ser imitação. Foi uma boa escolha. Mas alguns carolas não gostaram. É que o Galeno pintou uma Nossa Senhora sem rosto e umas bandeirinha e pipas - veja nas fotos. Deu até abaixo-assinado. Um dos fundamentalistas queria que o pintor projetasse uma pintura sacra na parede e copiasse. É mole?
Brasília, às vezes, é a capital federal. Com frequência é só uma cidadezinha de Goiás. Imagina só se Michelângelo fosse brasiliense e quisesse pintar Adão e Eva pelados...
As fotos são de Jorge Diehl. Copicolei do ótimo Pictura Pixels.